"Já existem estudos demonstrando que na
Floresta Amazônica,
perto de Manaus, formigas e térmites (cupins) representam um terço da
biomassa animal. Se a elas se acrescentarem abelhas e vespas, serão 80%
do total", informa
Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal
O Estado de S. Paulo, 28-09-2012.
"Por isso, - continua o jornalista - dizem
Wilson e seu parceiro, pode-se afirmar que "o socialismo funciona, em certas circunstâncias.
Karl Marx apenas escolheu a espécie errada" para estudar".
Segundo
Washington Novaes, "embora, no caso das
formigas, suas 500 mil células nervosas tenham, juntas, apenas o
tamanho de uma letra numa página de livro. E se todas as espécies de
formigas desaparecessem, afirmam, "seria uma catástrofe".
Enfim, assevera o articulista, "no momento em que tantos estudos
mostram o momento difícil que vivemos por causa das várias crises
globais, incluindo a da finitude de recursos naturais, é preciso
entender muito mais não apenas da relação humana com os ecossistemas,
biomas, áreas específicas, mas também do significado, em cada um deles,
das muitas espécies, sua importância para a conservação - e para a
sobrevivência humana".
Eis o artigo.
Texto da BBC Brasil estampado na última segunda-feira por este jornal
relata a preocupação de cientistas com a "invasão global de minhocas" e
de "outras espécies alienígenas" - entre elas, as formigas -, que "já
conquistaram quase todos os continentes" (a
Antártida é
uma das exceções). Espécies invasoras estão "vencendo a competição" com
espécies locais porque se adaptam rapidamente a terrenos desmatados e
alterados, mudam a estrutura dos solos. Podem reduzir efeitos da erosão,
como na
Amazônia, aumentar o nível de minerais no solo e estimular o crescimento de plantas. Mas afastam outras espécies.
Estranho
que possa parecer, é tema altamente relevante, fascinante mesmo, por
muitos ângulos. E quem se interessar pode, por exemplo, consultar o
livro
Journey to the Ants - a Story of Scientific Exploration (Harvard Press University, 1994), de
Bert Hölldobler e
Edward O. Wilson,
este último considerado um dos maiores conhecedores da biodiversidade e
o maior especialista em mirmecologia, o estudo das formigas, ao qual se
dedica há meio século no mundo todo, com vários livros publicados. A
ponto de um deles (
The Ants, 1990) pesar 3,4 quilos. Juntos,
Wilson e
Hölldobler têm pesquisas de quase um século.
Wilson e
Hölldobler começam
ensinando aos humanos uma lição admirável das formigas: o seu êxito -
que as levará a dominar o planeta, de acordo com o primeiro - decorre do
extraordinário comportamento de cooperação entre os milhares de membros
de cada colônia, que produz extrema eficiência na busca, no transporte e
no armazenamento de alimentos, na reprodução, na defesa do grupo, etc.
Uma das armas principais nessa luta coletiva pela vida é o uso de vários
tipos de linguagem (corporal, visual, gestual, etc.), principalmente
química - porque o odor de cada parte do corpo, emitido no encontro de
dois seres, pode ter significados muito específicos, como alarme, desejo
de atração, disposição para cuidar da cria, oferta de alimentos, etc. E
essa cooperação é a base da sobrevivência.
A colônia é o sentido
fundamental da vida para cada formiga, embora possa haver disputa entre
a rainha e formigas operárias quando estas se sentem em condições de
reproduzir (o que cabe à rainha). Pode haver também conflitos com outras
formigas da mesma espécie. Mas, com suas características, as formigas
sobrevivem há muito mais tempo que os seres humanos, uns 100 milhões de
anos, desde a época dos dinossauros. É quase inacreditável, quando se
lembra que o tamanho de uma formiga é de cerca de um milionésimo do
corpo humano. Mas elas representam 1% do quintilhão de insetos que
existem no planeta - já eram na década de 1990 cerca de 10 quatrilhões e
cada formiga se reproduz umas 500 vezes nos 20 anos que o ser humano
leva para formar cada nova geração. Por isso, pensa Wilson, as formigas
dominarão a Terra. Hoje, juntas, pesam tanto quanto todos os seres
humanos.
Já existem estudos demonstrando que na
Floresta Amazônica,
perto de Manaus, formigas e térmites (cupins) representam um terço da
biomassa animal. Se a elas se acrescentarem abelhas e vespas, serão 80%
do total. Por isso, dizem
Wilson e seu parceiro, pode-se afirmar que "o socialismo funciona, em certas circunstâncias.
Karl Marx apenas
escolheu a espécie errada" para estudar. Embora, no caso das formigas,
suas 500 mil células nervosas tenham, juntas, apenas o tamanho de uma
letra numa página de livro. E se todas as espécies de formigas
desaparecessem, afirmam, "seria uma catástrofe".
Poderíamos
aprender muito com formigas, cupins e também com muitas espécies
vegetais. Há alguns anos, quando produzia um documentário para a TV
Cultura, o autor destas linhas foi ao
Jardim Botânico paulistano
acompanhando um especialista em grandes estruturas de concreto na
Universidade de São Paulo (USP), que começou mostrando uma variedade de
bambu com a maior capacidade de resistência a impactos físicos por
centímetro quadrado - e o estudo dos fundamentos dessa resistência
serviam para orientar a criação de grandes estruturas de concreto.
Depois mostrou um cupinzeiro, abrindo com as palavras: "Este é o
edifício mais inteligente que existe. Aqui vivem dezenas de milhares de
indivíduos, que convivem em harmonia, trafegam sem congestionamento
(para buscar alimentos), sem colisões, sem conflitos, orientando-se com
várias linguagens. No interior do cupinzeiro existem câmaras específicas
onde a rainha deposita seus ovos para reprodução; câmaras para depósito
de alimentos, com orifícios no alto para a saída de gases da
decomposição; outros orifícios que são fechados ou abertos por ação dos
cupins, para adaptar-se às temperaturas fria ou quente. Pode haver algo
mais racional?".
No momento em que tantos estudos mostram o
momento difícil que vivemos por causa das várias crises globais,
incluindo a da finitude de recursos naturais, é preciso entender muito
mais não apenas da relação humana com os ecossistemas, biomas, áreas
específicas, mas também do significado, em cada um deles, das muitas
espécies, sua importância para a conservação - e para a sobrevivência
humana. É espantoso: na hora em que cientistas afirmam que toda a
superfície de gelo acumulada no
Ártico pode derreter-se
(nos meses de verão) em quatro anos (guardian.co.uk, 17/9), liberando
quantidades assombrosas de metano acumuladas sob a camada até aqui
permanente, é preciso ter consciência da gravidade da situação. E da
necessidade de levar os comportamentos sociais a serem adequados às
novas questões. Até formigas, cupins, abelhas e vespas se enquadram
nesse contexto.
É aflitivo, por isso, verificar a distância dos
assuntos fundamentais em que se encontram, nesta hora, os temas das
campanhas eleitorais em todo o País. Não será por essas veredas
imediatistas que se poderá chegar a alguma via larga, aberta para o
horizonte e o futuro.
Em:
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/