Princípios da Agroecologia

Agricultura sustentável tem que considerar aspectos socioeconômicos e culturais dos grupos sociais implicados. Não basta proteger e melhorar o solo ou a produtividade agrícola se não resulta em melhorias nas condições de vida das pessoas envolvidas. Portanto, agricultura sustentável é um conceito que implica aspectos políticos e ideológicos que tem a ver com o conceito de cidadania e libertação dos esquemas de dominação impostos por setores de nossa própria sociedade e por interesses econômicos de grandes grupos, de modo que não se pode abordar o tema reduzindo outra vez as questões técnicas.

Francisco Roberto Caporal

http://www.aba-agroecologia.org.br/

grãos

"Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da Terra". provérbio africano

BANIR AGROTÓXICOS.

Assine o Abaixo-Assinado virtual que pede o banimento dos agrotóxicos já proibidos em outros países do mundo e que circulam livremente no Brasil.

A Campanha tem o objetivo de alertar a população sobre os perigos dos agrotóxicos, pressionar governos e propor um modelo de agricultura saudável para todas e todos, baseado na agroecologia.

Assine já, pelo banimento dos banidos! Entre no link abaixo.

GLOBAL DAY OF ACTION TO CUT CONFLICT PALM OIL! > MAY 20

http://www.ran.org/globaldayofaction">

CICLOVIDA Completo

Como os lobos mudam rios

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Na contra-mão da história


Postado em 15/04/2015
Capa Veja SP Abril 2015
Capa Veja São Paulo 15 de abril de 2015
A Revista Veja São Paulo, em sua edição desta semana – sem a menor preocupação pelo destino e saúde de dezenas de animais amontoados no chamado Aquário de São Paulo – faz um desserviço à sociedade, mostrando o que nunca será aquele centro de tortura de animais em plena metrópole paulista.
Ursos polares trazidos da Rússia, com autorização absurda de autoridades ambientais, que tampouco têm se preocupado com o destino daqueles seres, arrancados de um ambiente natural, para um ambiente artificial e inapropriado, com o único fim de divertir ao público.
A Organização AILA – Aliança Internacional do Animal – fez um Dossiê mostrando todas as irregularidades e carência desse Aquário, que nada acrescenta à vida desta cidade, salvo o sofrimento e dor para seres inocentes que terminarão enlouquecidos pela exposição constante ao público ignorante que o visitará.
Os grandes aquários mundiais estão à beira da falência e próximos a fechar, tanto na América do Norte como na Europa. Provas das torturas sofridas por animais aquáticos lá mantidos, destruíram a argumentação de que eram um local ideal para a vida marinha. Eram, e são meros tanques minúsculos para manter espécies que se deslocam em sua vida livre, dezenas de quilômetros por dia, no oceano.
Ainda o desserviço da Revista Veja se estende a dar maior publicidade à um senhor, que não tem nenhum preparo nem profissional, nem científico e que agora também pretende construir um Zoológico Particular na região de Cotia, como se já não bastassem as dezenas de zoológicos públicos em estado lamentável, que exibimos em nosso Estado e no Brasil.
É necessário que o Ministério Público investigue estes dois projetos: tanto do Aquário como o do Zoológico em construção, de onde proveem os recursos, como esses animais chegaram e chegarão à esses locais, e que controle se exerce sobre o funcionamento desses estabelecimentos.
O Dossiê da AILA está à disposição das autoridades ambientais e jurídicas para análise e providências. Não permitamos que São Paulo se converta num Centro de Tortura a mais de animais aquáticos, que devem ser respeitados e viver em liberdade em seu habitat.
Dr. Pedro A. Ynterian
Presidente, Projeto GAP Internacional
Acesse aqui o Dossiê da AILA:
Dossie Aila x Aquario de SP 2015

 http://www.projetogap.org.br/noticia/na-contra-mao-da-historia/


terça-feira, 31 de março de 2015

17 de Abril de 2015

Décima sétima abril: Dia de Luta Camponesa

Em 17 de abril, lutamos contra as empresas transnacionais e acordos de comércio livre

17 de abril de 2015:  Dia Internacional de Luta dos camponeses e agricultores contra as empresas transnacionais e acordos de comércio livre

POSTER 2015 17 DE ABRIL INGLES corregido FINAL - CPIA 2.png(Zimbabwe, Harare, 30 mar 2015) La Via Campesina declarou 17 de abril como o Dia Internacional de Luta Camponesa, a fim de destacar a luta e para denunciar a criminalização dos protestos.Camponês e os agricultores são perseguidos e sofrem violência diariamente, como resultado das ações do agronegócio e da implementação de políticas neoliberais no campo. Para o Movimento Internacional dos camponeses e agricultores, é urgente acelerar a aprovação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e outras pessoas que vivem em áreas rurais. A Declaração será uma ferramenta para apoiar a luta pela vida e dignidade no campo. 
Este 17 de abril de 2015, La V ium Campesina irá concentrar os seus mobilizações sobre os impactos das empresas transnacionais e acordos de comércio livre em camponesa e agricultura de pequena escala e da soberania alimentar nacional. Estamos chamando para o reforço da luta social e da organização mundial dos povos, para exigir uma reforma agrária genuína e fazer valer o direito ancestral de terras e territórios, um elemento central da agricultura camponesa e dos Povos Soberania Alimentar .
Desde 1996 - em honra dos 19 camponeses sem terra massacrados no Brasil - a Via Campesina Internacional celebrou este dia global de ação e mobilização. É um dia para celebrar e fortalecer a solidariedade e resistência das pessoas, e para aprofundar a aliança entre a cidade eo campo em apoio a um projeto de sociedade baseada na justiça social e da dignidade dos povos.
Nós, os homens e mulheres camponeses e pequenos agricultores, povos indígenas, afro-descendentes, e sem-terra do mundo estão lutando para construir um modelo de produção baseado na agricultura camponesa e de pequena escala e soberania alimentar. Acordos de Livre Comércio contrária a este projeto; eles aumentam ainda mais o deslocamento, expulsão e destruição de camponeses através da promoção de um modo de produção capitalista industrializada fortemente dependentes de agrotóxicos. Esses acordos são negociados sob a influência, e para os interesses de um punhado de empresas transnacionais; a voz do povo é excluído. 
Para La Via Campesina, as políticas que visam abrir e desregulamentar os mercados só servem os interesses das corporações transnacionais. Estes acordos comerciais e mercantis - sejam eles multi ou bi-lateral - basicamente buscam proteger as empresas estrangeiras, estabelecendo um conjunto de condições, medidas e regras para proteger os seus investimentos. Enquanto isso, a liberalização dos mercados tem impactos sociais e econômicos severos sobre camponeses e agricultores no Norte e no Sul.Acordos de Livre Comércio colocar os direitos de comércio sobre todos os outros direitos e interesses.  
Para fornecer apenas um exemplo, a União Europeia, os Estados Unidos e Canadá estão actualmente a negociar os acordos de comércio livre mais importantes da história.Estes acordos vão liberalizar os mercados de comércio e investimento. Eles vão ter um impacto global e definir, de uma forma que é favorável aos negócios, as novas regras pelo qual as empresas transnacionais podem operar. Se aprovada, estes acordos fornecerá corporações com as novas ferramentas que eles precisam para manipular os regulamentos, normas e políticas públicas, a fim de aumentar os seus lucros, ou seja, a resolução de litígios entre investidores eo Estado e do Conselho de Cooperação Reguladora. Como resultado, estados, regiões e comunidades perderá o poder de proteger os seus próprios cidadãos e ambientes.
Neste contexto, denunciamos o mecanismo de "arbitragem" sendo usado por essas empresas transnacionais para globalizar, transnacionalizar e privatizar os sistemas judiciais do mundo. Empresas privadas estão sendo autorizados a escrever as leis e de prosseguir uma estratégia destinada a estados de enfraquecimento e soberania nacional. Enquanto isso, a Organização Mundial do Comércio (OMC), está actualmente a tentar reinventar-se e lançou uma nova ofensiva contra a produção nacional de alimentos, distribuição e sistemas de reservas, que visa enfraquecer os sistemas públicos que protegem as pessoas.
Neste Dia de Ação Global, La Via Campesina insta suas organizações membros, amigos e aliados para agir em seus países e regiões para fortalecer nossa luta internacional. Essas ações podem ser mobilizações, ocupações de terras, trocas de sementes, feiras de soberania alimentar, fóruns, eventos culturais, etc.
Você pode registrar essas ações e nos envie informações sobre os eventos planejados, enviando um e-mail para lvcweb@viacampesina.org
Por favor, envie-nos fotos, vídeos, cartazes, flyers
Vamos publicar um mapa de todas as ações em www.viacampesina.org
Globalizar a luta, globalizar a esperança!
Para Soberania Alimentar dos Povos,
 Contra Empresas Transnacionais e FTAs!

http://viacampesina.org/en/index.php/actions-and-events-mainmenu-26/17-april--day-of-peasants-struggle-mainmenu-33/1770-on-17th-april-we-struggle-against-transnational-companies-and-free-trade-agreements

Patria Educadora!

http://www.renatojanine.pro.br/FiloPol/pensando.html


Pensando a Nova Política
pensar na frente de outrem.clarice lispector
De 1972 a 1975, assisti aos seminários de Gilles Deleuze, na Universidade de Vincennes, perto de Paris, onde o governo francês criara um território para os estudantes mais radicais do pós-1968. Era um espaço livre, mas ao mesmo tempo degradado – no restaurante universitário, por exemplo, como furtassem os talheres, a administração parou de fornecê-los, e só comia quem os trouxesse de casa. O pó às vezes se acumulava nos corredores. Mas as aulas, melhor dizendo, os "seminários" (il n’y a pas de cours! não há aulas, dizia Deleuze, quando lhe perguntavam se podiam assistir a elas) faziam pensar. Um dia, Deleuze elogiou as obras de Carlos Castañeda, antropólogo mexicano que estava em voga pela série de livros sobre um feiticeiro indígena com quem aprendera muito – e, em especial, a ver de uma maneira nova, diferente. (Mais tarde, Castañeda foi acusado de falsificar seus relatos mas, para o que nos interessa, tanto poderia ter escrito um documentário quanto uma obra de ficção; Deleuze também estudou Kafka, e ninguém vai perguntar se "o processo" ocorreu mesmo, e quando). Falou da importância de se aprender com a experiência. Um senhor na sala, o único de terno e gravata, lhe perguntou se por "experiência" entendia o que Husserl chamou de Erlebnis, que numa tradução literal seria "vivência".
Deleuze respondeu que não sabia alemão, que não conhecia Husserl – o que era tudo falso, porque ele era um fino entendedor da história da filosofia; só que, sendo mais um filósofo do que um historiador do pensamento, ele permitia-se esse duplo jogo. Por um lado, um certo charme: fingia uma ignorância que não tinha. Por outro, uma lição bem clara: não estava interessado no pedigree de suas idéias ou no pedantismo de seu ouvinte, mas em pensar a experiência. E concluiu, ante a insistência do senhor esnobe: "Pode definir experiência por vá ver o que está acontecendo, como Carlos Castañeda foi fazer com seu mestre índio". Há, nesse diálogo entre o filósofo e o aluno engravatado, um lado algo coquete. Deleuze não endossaria um vale-tudo com o pensamento. É difícil alguém que passou pela filosofia avalizar uma irresponsabilidade em que qualquer opinião valha. Mas ele também rejeitava uma tentativa de o enquadrarem, ele ainda vivo, como um pensador já canônico, cujas raízes alguém estudaria. Mais que isso, o que lhe importava – e por isso estava em Vincennes, apesar da agressividade de parte dos estudantes da escola, que de vez em quando invadiam as salas de aula, diziam absurdos e, no caso dele, assim o faziam desaparecer por duas ou três semanas – era que suas idéias vivessem.
E por isso, ao pedigree nobre que lhe oferecia o porta-voz do espírito de seriedade, fazendo remontar sua "experiência" à fenomenologia, ele preferia contrapor uma origem de registro quase vulgar. É claro, Deleuze não sabia que talvez Castañeda tivesse mentido. Mas ele recorria à antropologia e não aos clássicos, a um autor do Terceiro Mundo e não da Europa, ao saber de um adivinho e não ao de um acadêmico, ao mundo popular e não ao culto, à empiria e não à dedução. Este é um dos modos, certamente não o único, de nos fazer pensar. Melhor ainda, se combinarmos as duas origens, a culta que Deleuze marotamente ocultava e a vivencial, que ele enfatizava. É o que procuramos, aqui. Relatamos toda uma experiência com a política procurando, ao mesmo tempo, pensá-la. Este projeto não veio do nada. Cada texto, cada passo que demos esteve marcado por anos de reflexão sobre a política. (Algo disto se pode encontrar em meu A Universidade e a vida atual – Fellini não via filmes, ao qual remeto, mas lembrando que são dois livros inteiramente diferentes, até porque o eixo aqui é a questão da nova política).
* * *
A idéia de uma nova política vem também de uma questão que me chamou a atenção há cerca de dez ou doze anos. No começo dos anos 90, com a esquerda sendo atacada devido ao recuo mundial do comunismo, constatei que a direita (ou o capital) detinha os melhores meios de gestão. A eficiência abandonara a esquerda e se dirigira para o lado do capital. Isso inverteu um movimento histórico. Lembremos que, vinte ou trinta anos atrás, ainda uma maneira de se referir aos países comunistas era por terem a "economia planificada", ao contrário dos capitalistas. E no entanto quase todos os países do mundo, na segunda metade do século 20, instituíram algum ministério do Planejamento. Assim o planejamento, iniciado na jovem União Soviética da década de 1920, foi um procedimento que se irradiou mundo afora. Veja-se então o que significou essa perda de iniciativa, à qual aludi, da esquerda para o capital.
Rapidamente, novos métodos de fazer funcionarem as coisas acabaram, na prática, com quase tudo o que representaria o anterior controle estatal. Reduziu-se, a uma escala microscópica, tudo aquilo que porta valor, tornando-se assim quase inútil revistá-lo na alfândega; idéias e imagens podem ser armazenadas em discos mínimos e transmitidas por uma linha telefônica qualquer, de modo que a censura se tornou ridícula e ineficaz; as comunicações se difundiram a tal ponto que controlá-las é vão; mesmo quem as intercepte e grave mal tem como processá-las, tal o seu volume. Assim, no plano dos meios, a esquerda se viu desafiada a repensar tudo. Uns o fizeram, outros, não. Mas, no plano dos fins, quem entrou em crise foi a direita. Os valores dela eram, tradicionalmente, os da família e da religião. Hoje dificilmente, pelo menos no mundo ocidental, tais valores serão defendidos com o vigor que antes os caracterizava. Uma esquerda sem meios de ação, uma direita com fins enfraquecidos, eis o quadro que se montava desde muito tempo mas que os anos 90 revelaram, e que continua presente.
O desafio é, então, o seguinte: como, com os novos meios, que repelem os controles convencionais, atender a fins importantes – que guardam, do cerne do pensamento de esquerda, a preocupação com a solidariedade. Disse, num dos textos de campanha, que as invenções tecnológicas costumam ser disputadas politicamente. O ultra-som pode servir para diagnosticar, curar – e para exterminar fetos do sexo feminino. Mas isso não quer dizer que a invenção seja neutra em termos sociais ou políticos. Acredito que todos os produtos da inteligência tendem a ajudar um mundo melhor. Não são neutros, pois, quanto aos valores. Mas essa é uma tendência, não algo automático. Entre a Internet como reino inconteste dos negócios e como arma democrática, uma luta se trava. Penso que a tendência maior dela é rumo à democracia. Mas precisamos dar nossa contribuição, para que isso se realize.
Aqui entra o uso rico dos meios, a campanha com um site, o uso da Web como espaço para difundir idéias e, mais que isso, discuti-las. Mas aqui entra também a questão final: afirmei, no prefácio deste livro, que a nova política dará menor peso aos interesses, e mais a ideais e a desejos. Da redução do peso dos lobbies e dos interesses, porque diminui a certeza na identidade de cada sujeito, falei então. Aqui, cabe distinguir ideais e desejos.
* * *
Desejo é uma palavra que pode ser muito vaga. De propósito, deixo-a assim. Nos meus trabalhos já citados sobre república e democracia, opus desejo e vontade. Por vontade, entendemos de modo geral a força de vontade, isto é, a capacidade que acaso tenhamos de conter nossos desejos, nossos apetites, a fim de assim chegarmos a um resultado que caiba num registro nobre e superior. Um exemplo recorrente, na tradição clássica, é o da pessoa que deseja comida, bebida ou mulheres, mas consegue limitar-se, exercendo sua própria vontade. A vontade será assim, argumentei, a base para a república. O regime republicano, já pela etimologia de res publica (coisa pública, bem comum, common weal ou common wealth), funda-se numa autolimitação. Restringimos nossos desejos mais intensos. Assim se construiu a República Romana e seu ideário. Assim parece proceder todo partido que assuma o discurso do governo, do poder, o PSDB até o ano passado, agora o PT – que antes proferia um discurso mais democrático. (Aludo a um artigo de Celso Lafer, no O Estado de S. Paulo de 15 de junho, no qual o ex-ministro, citando minha distinção entre república e democracia, argumenta justamente isso: que os traços que eu atribuía aos tucanos foram incorporados, no exercício do poder, pelo Partido dos Trabalhadores). Porque a democracia, assim sustentei, tem sua expressão no desejo. Se a pensarmos como não só um regime político, mas como um anseio popular por ter e ser mais, como uma demanda que vem de baixo, se lembrarmos que parte razoável dos teóricos gregos da política considerava que demos não era só "o povo" mas também servia para designar "os pobres" e conseguia um sinônimo funcional na expressão "hoi polloi", isto é, os muitos, o vulgo – então, a democracia nasce dessa palavra obscura, que é brandida geralmente como acusação e vitupério e, por isso mesmo, é pouco e mal definida, "desejo".
Esse obscuro objeto, o desejo, será reprimido ao longo de quase toda a história política. Servirá, sempre que o desejante for pobre, como justificativa para que seja punido e confinado. Mas isso muda, em nosso tempo. Hoje, a própria dominação se assenta no apelo ao desejo. Não há sociedade de consumo sem ele. Sem ele, não há sequer consumo. Isso cria um problema sério sempre que há uma intensa desigualdade social, como é nosso caso. Por um lado, a sociedade funciona apelando ao consumo desabrido. Por outro, ao fazer isso ela suscita expectativas dos mais pobres, que não tem como atender. Desperta revoltas. Cutuca o desejo adormecido. Elimina as formas tradicionais de contê-lo. Vontade ou ideais, e desejos. Uma nova política há de operar com esses termos opostos. Mas sua oposição não é infecunda. Poderíamos chamá-la dedialética, que é nome técnico para designar uma oposição que seja altamente fecunda, ou melhor ainda, a idéia de que a fecundidade só pode nascer de oposições, nunca da harmonia. Entre o que antes se chamava ideal e o que antes se chamou desejo, as relações estão mudando.
Esbocemos um pouco este quadro. Os desejos passam para o plural. Não precisamos mais submetê-los à trindade da comida, da bebida e do sexo, como seus objetos. A própria obsessão de nosso tempo com a sexualidade pode ser um sinal de mudança. Tenho sustentado que devemos dessexualizar a ética. Isso quer dizerdeixar de lado a obsessão, que tem a moral convencional, com os comportamentos sexuais. Podem as pessoas parar de se preocupar com o que os outros fazem, ou não fazem. Um mundo mais plural em opções sexuais será, também, um mundo menos obcecado com o sexo. E o mesmo vale para a comida e a bebida. Quem reduzir seus desejos a essa velha trinca em breve estará sem assunto. Provavelmente, a obsessão atual com eles não passa de uma embriaguez final, de uma ressaca. Desejos podem tornar-se, daqui a um tempo, apenas ideais revestidos de intensa carga afetiva. Os ideais têm sido pensados a partir da renúncia, da entrega de si. Por aí se opuseram fortemente aos desejos, movidos por alguma afirmação de si, por aquilo que vulgarmente se chama egoísmo. Mas, se o enfraquecimento dos velhos esquemas repressivos de fato ocorrer, não haverá por que conservar a dicotomia entre desejos egoístas e ideais altruístas, entre desejos como expressão do afeto e uma vontade colorida pela razão, entre desejos como um grito de nosso íntimo e os ideais como repressão aos desejos. Será possível uma política que os agregue, que lhes dê força. E essa política tem a ver com a debilitação das identidades e do sujeito, de que falei no começo. As identidades, tornando-se mais precárias e plurais, levarão a uma vida social e política diferente.
Enquanto o sujeito esteve fundado no seu interesse, a ação que dele se esperava procurava fazê-lo perseverar no seu ser. Mas isso significou mantê-lo numa identidade já existente, ou seja, no passado. Daí que toda vez que sua ação real, a que ele de fato praticava, destoasse desse ser ou identidade (a de patrão, de empregado, de dona de casa), ela fosse condenada. A literatura e o cinema da segunda metade do século XX mostraram inúmeros casos dessas punições, e foram abrindo cada vez maior espaço para a rebeldia. Na primeira metade do século passado, a mulher que contestasse a família tradicional podia até ser lobotomizada. Uma bela casa no centro velho de São Paulo, que veio pertencer à USP pelo jogo das heranças vacantes, foi de uma mulher que, noventa anos atrás, guiava um carro – e foi internada pela família. Na era Brejnev, o soviético descontente com o regime era internado como doente mental. Mas essas dissidências foram crescendo. Não é apenas que essas coisas tenham acontecido. É que começaram a ser ditas. Faz pouco tempo que a irmã infeliz de John Kennedy, lobotomizada, se tornou mártir. Faz poucos anos que a mártir das motoristas paulistanas se tornou uma heroína cult em São Paulo. Tornou-se impossível refrear as dissidências. Não é mais possível pensar a política sem elas. E é empobrecedor pensá-las segundo o modelo das velhas identidades. Pensá-las assim é o que às vezes debilita a qualidade de movimentos como os feministas, de negros ou gays – quando eles, cuja razão de ser e enorme riqueza está em porem em xeque o esquema convencional, aceitam se cristalizar à imagem daquilo que recusam. Mas basta eles repelirem essa carapaça errada, que eventualmente envergam, para que recuperem sua capacidade de mudar o mundo. Um exemplo: se um movimento de mulheres defender apenas o interesse das mulheres, ele poderá até ter êxito imediato, mas perderá de vista o essencial, que depende de perceber que o assim-chamado feminino não se confunde com suas portadoras prioritárias.
Assim como a negritude não vale só para os negros, nem a homossexualidade é exclusiva de quem ama pessoas do mesmo sexo. Essas janelas abertas para a diferença, eis um traço importante da nova política. Esta será feita de idéias, ideais e desejos. É difícil dizer mais que isso. Precisamos de mais experiências nisso, de ensaio, erro e acerto.
* * *
Quero terminar com palavras que devo a uma aluna de pós-graduação que tive neste semestre, Ana Teixeira. Ela mandou-me um belo e-mail depois de proclamados os resultados. Nele, fazia um balanço da campanha e concluía com uma citação que, penso, valoriza tudo o que fizemos. Aproveito-a então para encerrar este livro: "Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais, exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar."

Este trecho faz parte do livro Por uma nova política. Uma campanha na SBPC (Ateliê Editorial, 2003).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Indios e Midia Digital

Indigenous Engagement with Digital and Electronic Media: InDigital Conference at Vanderbilt University, March 26-28

A cartoon by Gary Larson from 1984 shows natives in grass skirts rushing to hide TV, VCR and telephone before the anthropologists arrive. As these devices have become smaller, cheaper, and more widely available, the penetration of electronic media into indigenous cultures has only grown.


Native peoples of the Amazon and elsewhere in Latin America have become engaged consumers of electronic media, while also making use of video cameras, cell phones and laptops to create and transmit their own artistic and cultural productions and political views. The results can be complex and surprising, ranging from videos about traditional ceremonies to catchy electronic music and even a native-language cover of the Beatles. Among the works made by Kayapó film makers I trained as part of an indigenous media project at the Goeldi Museum in Brazil are films documenting tug-of-war at an interethnic sports competition; a professional soccer game in Rio de Janeiro; the “Miss Kayapó” beauty contest at a local fairground; and a concert by the indigenous pop star Bepdjyre, who composes his own lyrics in Kayapó but sets them to popular Brazilian dance rhythms.


Bepdjyre's stage show includes Kayapó girls showing off sensual dance movesgleaned from watching TV and DVDs.

This conference, sponsored by Vanderbilt and Middle Tennessee University, brings together anthropologists, media scholars and indigenous filmmakers to reflect on the appropriations and interpretations of digital media by indigenous peoples, and to discuss the transformations this use of technology is bringing about.

The "Miss Kayapó" beauty contest captured by film maker Tatajere.

Faye Ginsberg of the Center for Media, Culture and History at New York University will give the keynote address at the event. Indigenous filmmaker Takumã Kuikuru and Brazilian anthropologist Carlos Fausto present their documentary “The Hyper-Women,” which follows a village on the Upper Xingu River as it strives to rescue, rehearse and host a traditional song festival before the last woman who knows the repertoire dies. The film has won several international awards including the Jury Prize at Brazil’s prestigious Gramado Festival, Best Film at the Curitiba International Film Festival and Best Documentary at the Hollywood Brazilian Film Festival. Kayapó film makers Bepunu and Krakrax will show works produced on their own village-based laptop editing suites as part of the Goeldi Museum media project, and Richard Pace of Middle Tennessee University will present results of a study financed by the National Science Foundation on the uses and impacts of satellite TV, DVD players and cell phones in a Kayapó village.
 
Conference registration is open through February 16. For more information, visit vanderbilt.edu.

Updated from the original posting by The New York Review of Books.

Fonte: http://ethnoground.blogspot.com.br/

Protec-An-Acre - Rainforet Action Network

Protect-An-Acre

Since 1993, RAN’s Protect-an-Acre program (PAA) has distributed more than one million dollars in grants to more than 150 frontline communities, Indigenous-led organizations, and allies, helping their efforts to secure protection for millions of acres of traditional territory in forests around the world.
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Indonesia's Friends of the National Parks Foundation staff teach community members how to plant trees on the edge of Tanjung Puting National Park on Borneo. Photo credit: FNPF
Rainforest Action Network believes that Indigenous peoples are the best stewards of the world’s rainforests and that frontline communities organizing against the extraction and burning of dirty fossil fuels deserve the strongest support we can offer. RAN established the Protect-an-Acre program to protect the world’s forests and the rights of their inhabitants by providing financial aid to traditionally under-funded organizations and communities in forest regions.
Indigenous and frontline communities suffer disproportionate impacts to their health, livelihood and culture from extractive industry mega-projects and the effects of global climate change. That’s why Protect-an-Acre provides small grants to community-based organizations, Indigenous federations and small NGOs that are fighting to protect millions of acres of forest and keep millions of tons of CO2 in the ground.
Our grants support organizations and communities that are working to regain control of and sustainably manage their traditional territories through land title initiatives, community education, development of sustainable economic alternatives, and grassroots resistance to destructive industrial activities.
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Indonesia's Friends of the National Parks Foundation staff educate children about interacting with wildlife around Tanjung Puting National Park on Borneo. Photo credit: FNPF
PAA is an alternative to “buy-an-acre” programs that seek to provide rainforest protection by buying tracts of land, but which often fail to address the needs or rights of local Indigenous peoples. Uninhabited forest areas often go unprotected, even if purchased through a buy-an-acre program. It is not uncommon for loggers, oil and gas companies, cattle ranchers, and miners to illegally extract resources from so-called “protected” areas.
Traditional forest communities are often the best stewards of the land because their way of life depends upon the health of their environment. A number of recent studies <-Needs link add to the growing body of evidence that Indigenous peoples are better protectors of their forests than governments or industry.
Based on the success of Protect-an-Acre, RAN launched The Climate Action Fund (CAF) in 2009 as a way to direct further resources and support to frontline communities and Indigenous peoples challenging the fossil fuel industry.
Additionally, RAN has been a Global Advisor to Global Greengrants Fund (GGF) since 1995, identifying recipients for small grants to mobilize resources for global environmental sustainability and social justice using the same priority and criteria as we use for PAA and CAF.
Through these three programs each year we support grassroots projects that result in at least:
  • 10,000 acres of forest, held in customary ownership by Indigenous groups, is entered into the process of securing official land title recognition, providing communities with legal grounds to protect their traditional territories.
  • 10,000 trees planted, often as buffer zones around protected areas and/or as part of income and resource-generating permaculture projects that help stop land degradation.


Entrelaçamento quântico é finalmente posto dentro de um chip


Redação do Site Inovação Tecnológica - 05/02/2015
Entrelaçamento quântico é finalmente posto dentro de um chip
Os fótons oriundos de um laser ficam girando em torno do anel, sendo reemitidos aos pares, com um elevado percentual dos pares já saindo entrelaçados. [Imagem: Università degli Studi di Pavia]
Entrelaçamento integrado
Davide Grassani e seus colegas da Universidade de Pavia, na Itália, criaram um componente capaz de gerar direta e continuamente pares de fótons entrelaçados.
Os fótons entrelaçados ficam intrinsecamente "conectados" um ao outro, e tudo o que acontece a um alterará imediatamente o outro, qualquer que seja a distância que os separe.
Este é um elemento fundamental para a criação dos computadores quânticos, e sua integração no interior de um chip de silício promete simplificar muito todo o trabalho de leitura e escrita dos qubits, os bits quânticos.
Ressonadores em anel
O componente utiliza uma tecnologia já bem conhecida, chamada microanel ressonador, utilizada em diodos ópticosredes wireless a laser,microaceleradores de partículas e em experimentos de plasmônica, entre muitas outras aplicações.
Tipicamente, esses ressonadores capturam a luz, fazendo-a ficar dando voltas, e reemitem fótons com propriedades que podem ser ajustadas pelo projeto do componente. Neste caso, os fótons oriundos de um laser ficam girando em torno do anel, sendo reemitidos aos pares, com um elevado percentual dos pares já saindo entrelaçados.
"A principal vantagem da nossa nova fonte é que ela é ao mesmo tempo pequena, brilhante e feita de silício. O diâmetro do anel ressonador é de meros 20 micrômetros. Fontes anteriores eram centenas de vezes maiores do que a que desenvolvemos," disse o professor Daniele Bajoni, coordenador da equipe.
Os geradores de fótons entrelaçados até agora eram feitos sobretudo de cristais especiais e, com vários milímetros de diâmetro, inadequados portanto para serem inseridos no interior de chips.
Bibliografia:

Micrometer-scale integrated silicon source of time-energy entangled photons
Davide Grassani, Stefano Azzini, Marco Liscidini, Matteo Galli, Michael J. Strain, Marc Sorel, J. E. Sipe, Daniele Bajoni
Optica
Vol.: 2, 1, 88-94
DOI: 10.1364/OPTICA.2.000088

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Educação Ambiental,Agrobiodiversidade e Politica Ambiental

A Oca-Laboratório de Educação e Política Ambiental  e o NACEPTECA convidam:

Abertura Ciclo de Diálogos: Educação Ambiental, Agrobiodiversidade e Geopolítica

"Queremos aprofundar sobre o campo da EA no contexto político nacional e internacional.  Buscamos promover diálogos que contribuam para a formulação e implantação de políticas públicas comprometidas com a transição para sociedades sustentáveis. Este evento será a abertura de um ciclo atividades periódicas de reflexão conjunta com participação de pessoas com relevante contribuição no campo do ambientalismo, da política pública, da análise geopolítica e da educação."

Inscrição gratuita:  dialogosea@gmail.com





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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Cimi repudia declarações da ministra Kátia Abreu

Cimi repudia declarações da ministra Kátia Abreu
O Conselho Indigenista Missionário manifesta um veemente repúdio às declarações que a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu (PMDB-TO) deu em entrevista publicada neste dia 05 de janeiro de 2015 no Jornal Folha de S. Paulo.
A ministra mais uma vez defende a Proposta de Emenda Constitucional 215/00 e tenta deslegitimar o direito dos povos indígenas sobre suas terras tradicionais arguindo a tese absurda de que “os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”. Uma afirmação tão descabida e desconectada da realidade do nosso país só pode ser fruto de uma total ignorância e de uma profunda má fé. Quem realmente conhece a história de nosso país sabe que não são os povos indígenas que saíram ou saem das florestas. São os agentes do latifúndio, do ruralismo, do agronegócio que invadem e derrubam as florestas, expulsam e assassinam as populações que nela vivem.
A “rainha da motosserra”, como a ministra da Agricultura também é conhecida, passa inclusive por ridícula ao negar o direito dos povos lembrando que “o Brasil inteiro era deles”. Não é digno de quem foi chamada a ser ministra de Estado do Brasil propagar a ideia caricata de que os povos indígenas estariam reivindicando “o Brasil inteiro”. A Constituição Federal de 1988 garante o direito dos povos indígenas sobreviventes dos seculares massacres às terras tradicionalmente habitadas por eles, como garantia para a sua sobrevivência física e cultural. É no mínimo uma atitude esdrúxula de quem mal assumiu o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento vir a público com insinuações desrespeitosas à Lei Suprema do País. Não satisfeita em atacar, bem no início do “novo” governo Dilma, os povos indígenas, a representante do latifúndio tenta ainda pôr uma “pá de cal” sobre o inexistente processo de reforma agrária no Brasil e esgrime descaradamente a tese de que no Brasil não existiria mais latifúndio.
Com essa entrevista a ministra Kátia Abreu, além de revelar prepotência e cinismo, demonstra claramente que está no governo Dilma para pisotear os direitos daqueles que lutam pela distribuição equânime da terra, pelos direitos dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, camponeses e pelo meio ambiente. A ministra confessa sem meias palavras que assumiu sua pasta para defender o latifúndio e os privilégios que o governo tem concedido ao agronegócio.
A presidente Dilma Rousseff não se deixou impressionar pelas manifestações contrárias de amplos setores da sociedade brasileira à nomeação de Kátia Abreu, inimiga declarada dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, camponeses e do meio ambiente. Com a entrevista ficou evidente que as preocupações e os temores destes setores com o novo governo Dilma são legítimos e justificáveis.
O latifúndio, o ruralismo e o agronegócio não têm limites. Diante de tamanha insensatez e insensibilidade, não resta outra alternativa aos povos senão dar continuidade ao processo de articulação, mobilização e luta em defesa de suas terras e de suas vidas.
Brasília, DF, 05 de janeiro de 2015.
Dom Erwin Kräutler
Bispo do Xingu e Presidente do Cimi
Emília Altini
Vice-Presidente do Cimi
Cleber César Buzatto
Secretário Executivo do Cimi

domingo, 5 de outubro de 2014

Gratidao, Neide Rigo!

Posted: 04 Oct 2014 03:06 AM PDT
Ontem ultrapassamos fronteiras e nos embrenhamos por outros rincões do Sertão de São Francisco.  Estivemos em Curaçá, município vizinho de Uauá e visitamos uma escola rural, um pequeno criador de frangos e uma horta comunitária.

Chegamos à escola bem na hora da merenda e os alunos comiam um prato de macarrão branquelo e mole com umas lascas de sardinha em lata. Fiquei impressionada de ver a dispensa: mistura pronta pra arroz doce, mistura pronta pra risoto, mistura pronta pra curau, sacos de leite em pó, açúcar, sardinha, massa de tomate, macarrão, biscoito, mistura para cuscuz. As misturas, todas elas com acréscimo de gordura vegetal hidrogenada, corantes, conservantes, acidulantes e aromatizantes. O cardápio pregado na parede já é pobre nutricionalmente, mas o que se pratica é ainda pior, é feito do que é possível. Diretoras e merendeiras têm que fazer das tripas coração para conseguir fazer alguma comida com aqueles produtos da dispensa. Para ganhar algum ar de comida, trazem alho, coentro e cebola de casa.  As merendeiras não têm capacitação e trabalham sem uniforme, com unhas grandes e pintadas,  com cabelo solto, em cozinhas precárias, com geladeira doméstica, quando tem. Algumas trabalham em várias funções. Algumas tratam os alunos com delicadeza, outras, servem a comida como quem dá comida aos porcos.  Com as mãos,  uma merendeira de uma escola que visitei pega um lanche seco e entrega displicentemente aos alunos - vi um pão aberto, seco, recheado com uma única fatia de mortadela, por exemplo. Em muitas escolas, nem mesa de preparo na cozinha tem.  Refeitório, a maioria não tem. Os alunos pegam os lanches e saem pelo pátio árido e nada acolhedor para abocanhar sua ração. E tratam aquilo não como comida mas apenas como combustível - ou munição -,  por isto não é raro ver guerra de cream cracker, maçãs ou melancia nos páteos.

Nas escolas rurais não chegam produtos da agricultura familiar, pois o município prefere gastar os 30% que lhe cabe nas escolas urbanas, por questão logística. É mais fácil a distribuição de bananas, por exemplo, nas escolas da cidade, pois são todas perto umas das outras. Já as escolas rurais sofrem todos os tipos de castigo e lhes restam estes alimentos pré-prontos. E justo estes alunos são os que moram longe, em fazendas precárias,  sem plantações, com menos acesso a  frutas e verduras, e saem bem cedo de casa, enfrentando longas distâncias de estradas esburacadas.  Às 10 horas eles estão morrendo de fome e o que tem é biscoito com leite diluído com café ou um cuscuz seco com soja (a proteína preferida pois vem seca e não precisa de refrigeração) que é servido com água. Então, aquela história de que a merenda deve suprir 30% das recomendações nutricionais do dia, esqueça.  É inconcebível pensar numa escola rural sem uma horta sequer, sem uma fruta fresca ou um legume ou uma folha, sem um recanto agradável com sombra e mesas para os alunos comerem com dignidade. Mas elas existem e estão espalhadas por todo o Brasil, como aquela de Acrelândia. E depois queremos um mundo melhor, com adultos recheados de valores éticos e morais. Como, se nossas crianças são tratadas e alimentadas desta forma?

Mas, tudo bem, ontem teve bons exemplos também. Conhecemos, na comunidade Cachoeira, em Curaçá,  uma horta comunitária tocada por dez famílias com muita gente jovem. O terreno, as sementes e a assistência são doações de uma mineradora da região, não porque ela é caridosa, mas como forma de minimizar os estragos ambientais que fiz por ali. Mas vou falar das coisas boas. Cada família cuida do seu pequeno espaço de 75 por 9 metros e ali produz, irrigando direto na terra, ou molhando a terra com regador, berinjelas, coentro, repolhos, couves, repolho, mamão, entre outros itens. Berinjela é como se fosse uma panc (planta alimentícia não convencional), porque não tem saída, ninguém sabe o que se faz com ela, e assim amadurece no pé. Jiló e manjericão, a mesma coisa.  O manjericão é plantado só para as abelhas.

Visitamos ainda uma pequena granja onde as galinhas recebem não só milho, soja e complementos minerais e vitamínicos, mas também folhas de leucena e mamões plantados só pra elas ali na propriedade,  que se vira sem energia elétrica. Algumas fotos.


Pedras abundantes do sertão, craibeira florida e jeguinho. E coisa rara por
aqui: céu de chuva 

Delma e seus repolhos 

Antônio ensinando a usar as folhas da cenoura pra
rechear peixe 

Repolhão 

Escola rural 

Hilário, outro jovem que produz em outra comunidade, Antônio, marido de
Delma, e João, da equipe da Coopercuc

Todo mundo tira lasquinha da amburana de cheiro. Medicinal e perfume.

Os umbuzeiros estão floridos

A flor é perfumadíssima e linda 

O manjericão daqui é super perfumado, mas ninguém usa na comida. É mais
uma panc 

Berinjelas amadurecem no pé. Ninguém sabe como comer 

Mesmo o quiabo não tem boa saída 

A granja quase artesanal. A porta do galpão é aberta e elas podem ciscar no
terreno.

fonte: come-se.blogspot.com.br

Agroecologia: Mitos

SAGA DA AMAZÔNIA - Vital Farias

Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos.

O tirano, o padre, os tomadores de almas, [os pastores de rebanhos], têm necessidade d
e nos persuadir de que A VIDA É DURA E PESADA. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virgilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos (...)

Não é fácil ser um homem livre: fugir...aumentar a potência de agir, afetar-se de alegria, multiplicar os afetos que exprimem ou envolvem um máximo de afirmação. Fazer do corpo uma potência que não se reduz ao organismo, fazer do pensamento uma potência que não se reduz à consciência.
Deleuze/O.Pinho